quinta-feira, 14 de junho de 2018

😕 O LENÇO

Vejam como são as coisas. Dia desses, ao esvaziar os bolsos de minha calça para colocá-la para lavar, encontrei meu lenço sujo de batom!
Ouvi as trombetas! Era o apocalipse chegando! Um lenço sujo de batom no bolso da minha calça? Como isso podia ter acontecido? Não me lembrava de tê-lo emprestado para ninguém, principalmente para uma mulher batomizada. Noves fora que eu tenho várias colegas de trabalho e certamente não me importaria de emprestar meu lenço a nenhuma delas, não lembrava de maneira nenhuma de tê-lo feito.
Logo, meu implacável cérebro começou a elaborar hipóteses: a primeira é que eu havia realmente emprestado o lenço para alguém e não lembrava. Sinal dos tempos e da senilidade chegando, hipótese absolutamente plausível, mas que me incomodava muito, pois, além de ser um indício de que minha data de validade está expirando, me deixava com a suprema questão: e quando a Rádio Patroa me perguntasse de quem era o batom, o que eu responderia? Dizer “não lembro” acarretaria numa cena shakespeariana de desconfiança e drama, com a digníssima dama em lágrimas gritando para os vizinhos ouvirem “quem é essa vagabunda?” ou “você não me ama mais!” Não, não, de jeito nenhum, eu tinha que arranjar uma dona pro batom, nem que fosse minha avó, a despeito do inconveniente de que ambas já são falecidas.
Outra hipótese: algum(a) colega de trabalho pegou o meu lenço e o sujou para me pregar uma peça (ou um divórcio). Hipótese bastante plausível também, devido ao fato de que eu trabalho com um monte de sacanas. Mas o problema de memória continuava: eu não lembrava de ninguém que tivesse pedido meu lenço, seja homem ou mulher. Pegar meu lenço sem que eu percebesse seria muito difícil, mas absolutamente impossível seria alguém colocá-lo de volta no meu bolso sem que eu notasse uma mão se insinuando na minha bunda. Nem bêbado! E eu não bebo (com exceção de umas malzbierzinhas...). Não, não, hipótese descartada.
Continuei elocubrando as mais improváveis hipóteses: conspiração internacional, leprechauns, universo paralelo, abdução por alienígenas, Matrix... as possibilidades eram infinitas, mas nenhuma delas me dava a resposta que eu precisava. 
Por fim, dei-me por vencido e decidi enfrentar meu destino, confiando na conversa fiada de “quem não deve não teme”. Chamei a Dona Encrenca, fui mostrando o lenço e já fui falando antes do inevitável interrogatório que não lembrava como o lenço foi ficar sujo de batom. Ela então esclareceu o mistério: ela havia pedido o famigerado lenço quando saíra comigo dias antes e, portanto, o batom era dela!
Fim da agonia. Mas o interessante dessa estória é que todos os homens com quem eu conversei sobre isso foram unânimes: Teriam jogado o lenço fora.

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