😕 O LENÇO
Vejam
como são as coisas. Dia desses, ao esvaziar os bolsos de minha calça para
colocá-la para lavar, encontrei meu lenço sujo de batom!
Ouvi
as trombetas! Era o apocalipse chegando! Um lenço sujo de batom no bolso da
minha calça? Como isso podia ter acontecido? Não me lembrava de tê-lo
emprestado para ninguém, principalmente para uma mulher batomizada. Noves fora
que eu tenho várias colegas de trabalho e certamente não me importaria de
emprestar meu lenço a nenhuma delas, não lembrava de maneira nenhuma de tê-lo
feito.
Logo,
meu implacável cérebro começou a elaborar hipóteses: a primeira é que eu havia
realmente emprestado o lenço para alguém e não lembrava. Sinal dos tempos e da
senilidade chegando, hipótese absolutamente plausível, mas que me incomodava
muito, pois, além de ser um indício de que minha data de validade está
expirando, me deixava com a suprema questão: e quando a Rádio Patroa me
perguntasse de quem era o batom, o que eu responderia? Dizer “não lembro”
acarretaria numa cena shakespeariana de desconfiança e drama, com a digníssima
dama em lágrimas gritando para os vizinhos ouvirem “quem é essa vagabunda?” ou
“você não me ama mais!” Não, não, de jeito nenhum, eu tinha que arranjar uma
dona pro batom, nem que fosse minha avó, a despeito do inconveniente de que
ambas já são falecidas.
Outra
hipótese: algum(a) colega de trabalho pegou o meu lenço e o sujou para me
pregar uma peça (ou um divórcio). Hipótese bastante plausível também, devido ao
fato de que eu trabalho com um monte de sacanas. Mas o problema de memória
continuava: eu não lembrava de ninguém que tivesse pedido meu lenço, seja homem
ou mulher. Pegar meu lenço sem que eu percebesse seria muito difícil, mas
absolutamente impossível seria alguém colocá-lo de volta no meu bolso sem que
eu notasse uma mão se insinuando na minha bunda. Nem bêbado! E eu não bebo (com
exceção de umas malzbierzinhas...). Não, não, hipótese descartada.
Continuei
elocubrando as mais improváveis hipóteses: conspiração internacional,
leprechauns, universo paralelo, abdução por alienígenas, Matrix... as
possibilidades eram infinitas, mas nenhuma delas me dava a resposta que eu
precisava.
Por fim, dei-me por vencido e decidi enfrentar meu destino, confiando na
conversa fiada de “quem não deve não teme”. Chamei a Dona Encrenca, fui
mostrando o lenço e já fui falando antes do inevitável interrogatório que não
lembrava como o lenço foi ficar sujo de batom. Ela então esclareceu o mistério:
ela havia pedido o famigerado lenço quando saíra comigo dias antes e,
portanto, o batom era dela!Fim da agonia. Mas o interessante dessa estória é que todos os homens com quem eu conversei sobre isso foram unânimes: Teriam jogado o lenço fora.
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