😀 BINGO DA IGREJA
Almoço
na igreja seguido de bingo. Atividade social de primeira ordem no meu bairro,
momento de descontração, encontro de vizinhos e suas famílias e, por que não
dizer, de considerável aporte de recursos financeiros para a manutenção do
templo.
Hora
do bingo, as pessoas se apressam para comprar suas cartelas e pegar canetas e
lápis para marcar seus pontos. Todos se sentam e aguardam ansiosos o início do
sorteio dos números. O animador então tem a brilhante ideia de convidar uma
menina – por acaso minha sobrinha – muito simpática e querida por todos, para
que ela anunciasse os números sorteados. O globo com as bolas é então girado e
a primeira bola é sorteada. O número é passado para a menina que, com um grande
sorriso e com notável performance para a sua idade (uns 8 anos talvez?) anuncia
ao microfone:
― 18!
Alguns
avidamente marcam suas cartelas, outros ficam imóveis e outros ainda não escondem
a frustração de já estarem em segundo lugar na disputa. O globo com as bolas é
novamente girado e mais uma bola é sorteada. O número é passado para a menina
que, com a autoconfiança em franca ascensão, anuncia ao microfone:
― 57!
O
ritual se repete, enquanto alguns marcam suas cartelas, outros permanecem
imóveis e alguém pergunta: “qual foi o primeiro número”? O globo com as bolas é
mais uma vez girado e nova bola é sorteada. O número é passado para a menina
que, a essa altura, já pensa na carreira profissional (para poder sonhar com a
aposentadoria integral, lógico). Ela então anuncia ao microfone:
― 63!
O
processo vai se repetindo. Enquanto alguns vão se empolgando com os números
que, sem mérito algum, já obtiveram, outros começam a reclamar do azar mandando
girar o globo direito (como se houvesse um procedimento normatizado para isso).
Lá pelas tantas, tem sempre alguém que se acha mais engraçado que os outros e
grita “água”! E a menina, agora absolutamente no controle da situação, faz
charminho no microfone, pose pra foto e ainda arrisca fazer um suspense
(ignorando que boa parte dos presentes já passou da idade para se considerar
isso uma prática segura). E anuncia ao microfone:
― 7!
Por
fim, o inevitável acontece: alguém grita “Bingo”! Protestos generalizados,
lamentos de “só faltava um no meu” e o rigorosíssimo processo de conferir um
por um os números na cartela do suposto vencedor. Feita a auditoria,
constata-se que o vencedor faz jus ao seu prêmio, que tanto faz se é um
aparelho de Blue-Ray ou um LP da Tetê Espíndola, o importante é que eu ganhei!
Mas
então o animador da festa resolveu incrementar a brincadeira. Ofereceu então um
CD de um artista amigo dele (ou de algum lote encalhado, isso pouco importa)
para quem fechasse a próxima cartela. Acontece que, como só quem já participou
de bingos “apenas para diversão” sabe, quando o sorteio das bolas é retomado,
fatalmente mais de uma cartela acaba sendo concluída, o que significa que não
basta ter um prêmio para o segundo colocado, pois haverá vários deles. E a
menina prosseguiu com seu ofício de anunciar números sorteados ao acaso.
― 20!
“Bingo”!
“Bingo”! “Bingo”! Danou-se! O animador aprendeu a lição tarde demais. Os três
vencedores então se dirigiram para a frente do salão para exigirem seus
direitos constitucionais de adquirirem um CD que até cinco minutos antes eles
nunca tinham ouvido falar. O animador, atarantado, levou os conquistadores para
um canto onde estava a sua maleta e de lá conseguiu sacar outros dois CDs
(donde se conclui que estavam encalhados mesmo). Explicações, apertos de mão,
sorrisos, afinal, é tudo uma brincadeira, é pela igreja, aquelas coisas...
As
pessoas voltaram para as suas mesas, algumas começavam já a se despedir, o
pároco satisfeito com o sucesso do evento. Então, subitamente, o animador teve
consciência de que um erro gravíssimo havia sido cometido: ele havia esquecido
de avisar a menina, que continuava com o microfone e com o globo de bolas, de que
a brincadeira já havia terminado.
― 14!
Metade
dos presentes se levantou, o vozerio elevou-se num único e poderoso grito:
“Bingo”! A festa da igreja virou arquibancada do São Januário em dia de
rebaixamento do Vasco. O animador foi acuado num canto do salão e passou a
pensar somente em sua mulher e seus filhos, enquanto o pároco retirou-se para
orar pelas vítimas do desastre. Os detentores dos prêmios riam histericamente
em suas mesas enquanto outros que nem assim haviam ganho algo começavam a
gritar “marmelada”! Duas senhoras começaram a revirar o lixo em busca das
cartelas amassadas. O diácono, policial aposentado, pôs-se a procurar pela sua
arma (nunca acho quando preciso!), enquanto pessoas que ninguém conhecia
aproveitaram a confusão para entrar e se servir do buffet, já frio mas ainda bastante
saboroso. Por fim, após muita confusão, organizou-se uma fila e o animador
começou a anotar os nomes dos ganhadores com a promessa de trazer mais CDs no
próximo domingo. A essa altura, a auditoria tinha ido pras cucuias e pouco
importava se o cara tinha acertado ou não, o importante era sair vivo dali. Aos
poucos o caos foi dando lugar à ordem, como acontece em toda ditadura militar,
e as pessoas, agora mais calmas e sorridentes, voltavam para seus lugares,
aliviadas por encontrarem suas bolsas onde haviam deixado. Os penetras sumiram,
as mesas começaram a ser fechadas, as pessoas começavam a se despedir e se
dirigir para a saída, já especulando como seria o bingo do ano que vem. O
animador, com a camisa empapada de suor, sentou-se a uma mesa, apoiou o
cotovelo nela e pousou galantemente seu rosto na mão agora não tão trêmula. Sua
pressão arterial e respiração já começavam a voltar a patamares normais e ele
já pensava em como havia se metido nessa encrenca. Subitamente, uma vozinha
angelical foi ouvida nos alto-falantes:
― 36!
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