quinta-feira, 10 de abril de 2025

 👴 É MUITA IRA!


Não é a primeira vez, mas, sinceramente gostaria que fosse a última. No último dia 29/03/25, o vocalista "Nasi" do grupo "Ira!" fez a suprema burrice de expulsar de seu show em Contagem (MG) todos os "bolsonaristas" que haviam vaiado a sua estúpida declaração contra a anistia das vítimas do "golpe" de 08/01/23.

Para início de conversa, o que se poderia mesmo esperar de um cara chamado "Nasi", integrante de um grupo chamado "Ira!"?

O fato é que temos que admitir que os grupos de pop rock dos anos 80 e 90 fizeram a alegria da juventude de minha geração. Começando pela Blitz, passando por RPM, Paralamas do Sucesso, Q.I. de Abelha, Magazine e tantos outros grupos que fervilhavam naquela época. O papel deles na História da música e da de cada um de nós que viveu essa época é indelével e nada pode ofuscar o brilho deles.

Naquele tempo, criticava-se abertamente a ditadura militar, já extinta, mas recente na memória de quase todo mundo. Criticava-se a censura, que impedia a livre expressão artística e cultural de gerações de grandes e talentosos artífices. E isso se refletia na música, naturalmente, sempre de forma crítica e ácida.

Mas o tempo passa. E passa. Vão-se 30 ou 40 anos. Hoje a ditadura não usa farda, mas toga. Você é livre para criticar o que você quiser, desde que não ofenda à nova safra de rábulas que se outorgou o controle do país. Você pode votar, mas se eles não gostarem de quem foi eleito, eles tiram. Se, por outro lado, você mentiu, roubou, corrompeu e faliu todas as instituições em que pôde botar as mãos, você é perfeitamente apto para o cargo supremo da nação, mesmo que a maioria dos eleitores não queiram (mero detalhe). E se você for esclarecido o suficiente para entender o que está acontecendo e critica, seja na forma de protesto, piada ou o que for, você é preso ou obrigado a se exilar em algum país onde a democracia ainda prevaleça.

Nesse cenário dantesco que é manifesto no nosso país, é lamentável que muita gente ainda não tenha enxergado o que é tão óbvio: a democracia que achávamos que havíamos reconquistado em 1985 foi perdida. Não porque o povo não tenha lutado novamente por ela, mas porque aqueles que deveriam defendê-la acovardaram-se ou, pior, se tornaram cúmplices dos seus usurpadores.

E, pelo jeito, entre esses que ainda não enxergaram o óbvio, estão certos integrantes de grupos musicais que nós amávamos há 40 anos. Acontece que nós crescemos, o mundo mudou, o Brasil mudou e para pior. Mas, na cabeça dessas pessoas, o inimigo ainda é um cara de farda. Com os cérebros fossilizados nessa premissa, eles não conseguem compreender que a situação hoje é totalmente diferente da época em que eles nos divertiam e empolgavam com suas músicas. A geração que ia aos shows e bailes ouvir suas músicas hoje é formada por carecas e barrigudos e são esses carecas barrigudos que vão aos seus shows hoje. E o que esses caras ainda não entenderam é que esses carecas barrigudos são conservadores, tradicionalistas, em suma, de direita. Querer fazer discurso esquerdista/socialista para eles é uma idiotice, pois nós crescemos - como dizia Roberto Campos, "Um homem de 20 anos que não é socialista não tem coração, mas um homem de 40 anos que ainda é socialista, não tem cérebro". Nós temos 60. 

Nós crescemos e vamos ser forçados, nós, nossos filhos e netos, a viver numa ditadura muito pior do que a que nossos pais viveram - e da qual tem saudades. Felizmente, para nós, não por muito tempo, já que a nossa geração já passou o Cabo da Boa Esperança e a morte será nossa única benção libertadora previsível a longo prazo.

Então, para encerrar essa melancólica missiva, faço um apelo para que os integrantes desses queridos grupos musicais acordem e se manquem que eles não estão fazendo show para adolescentes acéfalos discípulos de Felipe Neto (que nem os conhecem), mas para pessoas que cresceram e descobriram que o inimigo agora é outro e que não gostariam de ver seus queridos ícones da juventude fazendo um papel tão ridículo. Em suma: cresçam.

A propósito, faz muito tempo que eu não ouço a música "300 Picaretas" do Paralamas do Sucesso.

Por que será?.

domingo, 18 de junho de 2023

 😲 JUDAS

Diz a tradição cristã que Jesus foi traído por Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos. Judas recebeu trinta moedas de prata dos sumos sacerdotes de Jerusalém para entregar Jesus. Ele conduziu um bando até o jardim do Getsêmani, onde Jesus estava com alguns discípulos e o beijou para lhes indicar que era a pessoa que deviam prender. Depois que Jesus foi preso, Judas se arrependeu, tentou devolver as moedas de prata e cometeu suicídio.

Sou católico apostólico romano xiita desde que nasci, mas, confesso, há muito tempo eu deixei de engolir essa estória. Uma análise superficial dela nos permite levantar alguns pontos de questionamento interessantes:

1º) A morte de Jesus era necessária para o projeto de salvação. Jesus não apenas sabia disso, como já havia alertado os discípulos, que, tapados como eram, não entenderam nada. Jesus precisava morrer para poder ressuscitar (todos de acordo que não é possível ressuscitar sem morrer antes, certo?), mas não podia simplesmente ir se apresentar aos sumos sacerdotes e dizer: “Cheguei, galera, façam logo o que vocês têm que fazer”.

2º) Qual a necessidade de alguém indicar Jesus, uma figura pública conhecidíssima, com um beijo? Imagine que hoje alguém quisesse trair o Bolsonaro, por exemplo: ele precisaria se aproximar dele e beijá-lo? Claro que não. Há um quilômetro de distância você aponta o dedo pro meio de uma multidão e diz “Olha ele lá!”.

3º) Se Judas traiu realmente Jesus, sabia perfeitamente o que fariam com Ele. Não dá pra entender o seu arrependimento e seu subsequente suicídio. Tampouco ter a intenção de devolver o dinheiro, que de forma alguma reverteria a situação.

4º) Em Mateus 26, é descrita a famosa reunião (que virou piada de argentino) em que Jesus revela que um dos discípulos vai traí-lo. Então, um por um, perguntam para Jesus: “Senhor, porventura, serei eu?”. Um de cada vez pergunta até que chega a vez do dito cujo perguntar e Jesus responde na lata: “Sim, tu o declaraste!” Agora pensa comigo: se você não pretende fazer uma coisa errada, você vai perguntar pra alguém se você vai fazer? Não faz sentido. Se eu não pretendo jogar uma pedra na vidraça de alguém, eu não vou perguntar pro dono da casa: “Ei, cara, por acaso, você sabe se eu vou jogar uma pedra na sua vidraça?” Além disso, Jesus abre o jogo e diz pra todo mundo que Judas vai traí-lo – e ninguém faz nada? Em alguns grupos por aí, o cara ia ser convidado para dar “um passeio”. Aqui, ele termina de comer, paga a vaquinha, toma um café e vai embora, numa boa. 

Muito bem, eu levantei a bola, agora preciso chutar pro gol. O que eu acho que aconteceu?

A minha teoria é que Jesus precisava morrer (acho que até aqui ninguém discorda), mas Ele não podia se enforcar numa caverna – a morte dele tinha que ser pública e Ele tinha que ser elevado, para corresponder à imagem da serpente de bronze que Moisés havia feito e que todos que olhassem para ela seriam salvos – a analogia é bastante óbvia: quem vê Jesus como seu salvador e nele crer, terá a vida eterna. Portanto, Ele precisava ser morto num lugar alto e ao ar livre, ou seja, numa cruz. Obviamente, os sumos sacerdotes queriam exatamente isso, para se livrar daquele encrenqueiro que estava acabando com a mamata deles. Mas estes não podiam prender Jesus porque Ele vivia cercado de multidões – e tentar aprisioná-lo no meio de uma massa que o seguia fanaticamente estava fora de cogitação. Então Jesus, convenientemente, decide se afastar e vai para o Getsêmani. Mas um dos discípulos precisa bancar o traidor e ir avisar os sumos sacerdotes de que Ele estava lá praticamente sozinho e indefeso. Neste enfoque, a fatídica reunião muda totalmente de sentido. Jesus não estaria acusando alguém de ser um traidor – Ele estava avisando aos discípulos que um deles teria que cumprir esse papel e aí, um por um, perguntam a Jesus qual deles teria essa terrível incumbência. Jesus por fim escolhe Judas, que sai para cumprir a missão determinada pelo Mestre – e, sendo assim, é natural que ninguém reaja. Uma vez no Getsêmani, quando o grupo hostil chega, Jesus não se surpreende com a sua chegada, mas parece surpreso com o gesto de Judas, que diz “Eu te saúdo, ó Mestre!” e o beija, o que pelo jeito não estava combinado. Jesus teria se limitado a dizer “Amigo, para que vieste?”, o que no meu planeta pode significar “Você não precisava ter vindo até aqui.” O beijo, longe de ser um gesto de traição, seria uma demonstração de respeito e admiração, que lhe deram as forças necessárias para realizar missão tão ignóbil, porém necessária. E, por fim, surpreso ao perceber que Jesus seria realmente morto e não compreendendo que isso era necessário, ele se desespera e se mata. Certamente pesou também em sua mente a declaração de Jesus, quando Ele disse que “ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria jamais haver nascido”. Ele entendeu que teria pelo resto da vida a fama de traidor e não pôde suportar isso.

Aí Pedro faz aquela pataquada com a espada, fere o servo do sacerdote, só pra dar mais trabalho pra Jesus que teve que curá-lo. O resto todo mundo sabe... Pilatos, galo cantando, etc., etc., etc...

Eu sei que posso estar falando um monte de bobagens e que qualquer pessoa com mais preparo do que eu pode destruir minha argumentação com duas frases. Entendo isso perfeitamente. Mas para você que leu essa pequena epístola, eu gostaria de fazer um apelo: não chamem nossos militares de “judas”. Talvez vocês estejam ofendendo a memória de um discípulo que apenas cumpriu o seu dever.


sábado, 14 de janeiro de 2023

 😪 ACABOU

Agora que o mal por fim triunfou e a desgraça está consumada, é possível compreender um fato: não foi o demônio de 9 dedos, nem o PT e nem a esquerda que venceu. Isso nada mais foi que uma demonstração de força daquilo que o fictício Capitão Nascimento chamou de "sistema". O "sistema" provou que é ele quem manda. Não é o Executivo, nem o Judiciário, nem o Legislativo e muito menos as forças armadas. Quem manda é o "sistema". Todo o poder emana do "sistema" e em seu nome é exercido. O "sistema" decidiu levar o molusco de volta ao poder e para isso fez tudo o que foi necessário: descondenaram o bêbado maldito (e agora ninguém lembra que a Carmem Lúcia foi coagida a mudar o voto contrário que havia dado), destruíram o ordenamento jurídico, rasgaram a Constituição. Com a cumplicidade covarde do congresso, impediram o voto auditável (que já estava aprovado desde 2018) e mantiveram a urna eletrônica com todos os seus pecados. Forjaram pesquisas, prostituíram a mídia (e essa certamente foi a parte mais fácil) e enfim inventaram um resultado que lhes era adequado. E tudo isso para mostrar ao mundo quem realmente manda. Um seleto e incógnito grupo de mafiosos que decide sobre a vida e a morte de todos nós. E agora está mais do que provado, somos totalmente impotentes contra eles. Esqueçam essa tal de democracia, uma lenda infantil comparável ao Papai Noel; esqueçam essa tal de justiça, que a Bíblia já definia há dois mil anos como trapo de imundície; esqueçam essa tal liberdade, uma abstração que nunca serviu para nada mesmo; esqueçam suas esperanças e sonhos, pois o máximo que poderemos almejar serão as migalhas que caírem das mesas dos poderosos.
Obrigado, Jair, por descortinar para nós a terrível realidade a que estamos irremediavelmente condenados. Agora descanse em paz e cuide de suas feridas, tantas e dolorosas. Você sobreviveu para contar a estória, o que tantos outros não conseguiram. E se amanhã você for louco o bastante para tentar salvar o povo brasileiro de novo, tenha a consciência de que não merecemos mais dos seus sacrifícios. Está claro que o nosso justo destino é a ruína e a mediocridade.
Obrigado por tudo, Jair.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

 😪 A MORTE DA DEMOCRACIA

Talvez daqui há uns 50 anos, os historiadores identifiquem o momento que nós estamos vivendo hoje como o "início do fim da democracia". Digo isso com tristeza e, de certa forma, conformismo, já que parece cada vez mais óbvio que a democracia está se tornando anacrônica.

A ideia original dos gregos parece perfeitamente óbvia e perfeita, sendo ainda perfeitamente praticável. As pessoas se reuniam em uma praça, discutiam um assunto e então votavam individual e presencialmente. As pessoas conheciam os oradores e tinham plena consciência dos fatos que as levavam a apoiar uma posição ou a outra.

Mas então a Humanidade obedeceu à ordem de Deus: “crescei e multiplicai-vos!” E as populações foram crescendo e crescendo e crescendo numa escala exponencial. Em alguns séculos, a população de humanos ficou de tal ordem volumosa que não era mais possível que alguém pudesse ser efetivamente conhecido por toda a comunidade – salvo por algum aspecto que a levasse à fama, mas ainda assim seu nome seria conhecido, não a pessoa.

Então inventaram a tal da eleição. E com a invenção da eleição, foi inventada também a fraude eleitoral. E o homem moderno aprendeu a conviver com as duas, tentando (ou fingindo tentar) aperfeiçoar a primeira e combater a segunda. E a massa seguia acreditando no sistema, em parte por não ser capaz de imaginar outra coisa melhor, em parte porque tentava acreditar que as fraudes não eram capazes de causar um impacto realmente significativo nos resultados da eleição.

No Brasil, onde a instituição da corrupção é sagrada, o processo eleitoral criou uma situação pitoresca: imagine-se por um momento como a pessoa mais honesta e competente do mundo e então você decide entrar para a política. Ora, apenas as pessoas que te conhecem diretamente sabem que você é a pessoa mais honesta e competente do mundo e mesmo que todas elas votem em você, ainda não seria suficiente para permitir a você se eleger, seja para qual cargo for. Você precisa ter seu nome e seus atributos divulgados para que mais pessoas conheçam você. O nome disso é propaganda. E propaganda custa dinheiro. E você não tem esse dinheiro e, mesmo que tivesse, não seria inteligente bancar isso do seu bolso, já que os ganhos com o cargo pelo tempo do mandato na maioria das vezes não cobrem os gastos com a propaganda. Ora, mas uma empresa decidiu investir na sua campanha e banca a sua propaganda. A empresa é patriota e sabe que você será o melhor político do país? Claro que não. Ela vai querer o retorno disso em contratos com o governo. Mas você é honesto e não aceita esse trato. Tudo bem. Outros aceitam e você continua assistindo a TV Senado em casa.

Mas o momento atual evoluiu para um quadro ainda mais perturbador. Por conta da expansão mundial de uma ideologia que já devia estar extinta, todos os fundamentos em que se baseiam a ideia de democracia estão ruindo. Pátria, família, liberdade – todas elas – são bombardeadas diuturnamente por agentes inimigos – na grande maioria idiotas úteis. E isso acontece justamente porque a democracia garante a liberdade de expressão. Até mesmo a liberdade de destruí-la. Devido a isso, as pessoas de bem, os verdadeiros democratas, se veem de mãos atadas. Isso já seria extremamente grave num país em que as instituições ditas democráticas funcionassem a contento. Não é o nosso caso. Vivemos num país em que o aparelhamento inimigo de todas as instituições, em todos os níveis, é uma realidade. Vivemos num país onde a democracia só é aceita se o candidato “certo” for eleito. Caso contrário, ele precisa ser destruído, por todos os meios, numa negação afrontosa e escandalosa da democracia em si.

Mas não pensem que o título desse obscuro texto se refere ao nosso país. Afinal, pouco importa ao resto da Humanidade se o Brasil virar uma monarquia tibetana. Não. Eu cheguei a essa conclusão com as recentes eleições americanas. Os EUA se acham a maior democracia do mundo (não é, é a Índia), mas é lá que assistimos atônitos ao desmoronamento desse sistema de séculos, ao qual nos acostumamos e já pensávamos que seria eterno. Assistimos não a uma fraude obscura e local, discutível e insignificante, mas a uma complexa operação de fraude, organizada e executada por pessoas de todos os níveis, muitas das quais se orgulhando do que fizeram! E uma vez ficando isso exposto, não vemos uma manifestação generalizada de repúdio, mas a maciça empulhação de grande parte da mídia e de outros segmentos, declarando que sempre houve fraudes, que é assim mesmo e aceite o fato consumado e cala a boca. Ora, uma coisa é você jogar baralho e passar uma carta para o parceiro por debaixo da mesa sem ninguém ver – outra é terminar o jogo e você ver que tem cinco ases na mesa.

Ou seja, lembra quando eu disse que as pessoas (fingiam) tentar combater a fraude eleitoral? Pois é. Não mais. Ela agora se tornou um instrumento útil e reconhecidamente válido das pessoas que se outorgaram o direito de dirigir os destinos de uma população, independente de qual seja a vontade dela. O nome disso é ditadura. E é para isso que nós estamos caminhando, não “nós” brasileiros, mas, “nós” o mundo todo, pois está se tornando evidente que outros sistemas estão se mostrando mais eficientes e até mais econômicos e viáveis. Sem hipocrisias sentimentalóides e sem necessidade de gastos astronômicos com propaganda. Sistemas políticos que garantem a sua estabilidade em quaisquer circunstâncias e que impõem a sua vontade a todos. Semelhante àquele que recentemente disseminou criminosamente uma doença pelo planeta, lucrou muito com isso, impactou na política das decadentes e prostituídas democracias ocidentais e serve de modelo para muitos. Na minha opinião, é só uma questão de tempo. Espero não estar mais aqui para ver isso, mas não faço apostas.

Escrevo essas palavras sem ter ainda saído a resolução final sobre as eleições americanas. Mas não importa quem ganhe. A tendência está aí e acho que é irreversível. Afinal, se as pessoas querem tanto ser escravas de um sistema genocida, quem sou eu para lhes negar esse direito?  

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

 😷 RECREANDO

Com o fim da pandemia (ou pandemônio), o grêmio finalmente pôde voltar a se reunir. Havia muita excitação no ar, uma alegria irradiando pelo reencontro de velhos companheiros que não se viam havia mais de seis meses. Foi difícil fazer o pessoal se acalmar e tomar seus lugares, pois a reunião havia sido convocada pelo Presidente do grêmio e havia em pauta várias questões muito importantes a serem discutidas.
O Presidente e o seu Vice sentaram-se a uma mesa, convenientemente colocada sobre um pequeno tablado. Não sem dificuldade, conseguiram fazer funcionar o empoeirado sistema de som e silenciar a audiência. O Presidente então pediu a palavra e iniciou os trabalhos do dia:

 Bom dia, meus amigos! Antes de darmos início à discussão dos pontos da pauta, eu gostaria de ter uma conversa muito séria com vocês.

Os poucos que ainda não haviam fechado a matraca subitamente silenciaram. O tom grave do Presidente atraiu a curiosidade de todos, já que era um evento raro. Afinal, aquilo era um grêmio recreativo, não uma diretoria de empresa.

 Não posso deixar de chamar a atenção dos amigos para o momento grave que estamos passando em nosso país.

Alguns se ajeitaram melhor na cadeira e o Vice-Presidente balançou a cabeça em sinal de concordância.

 O momento atual que nosso país está passando é muito preocupante e creio que seria nosso dever marcarmos posição, enquanto agremiação respeitável dentro de nossa comunidade.

O Vice-Presidente resolveu deixar os outros ouvirem a sua voz.

 É verdade!

 É com grande procupação que eu vejo que a democracia em nosso país está correndo sério risco. Existem forças políticas e econômicas que estão se consolidando para desconsiderar e até mesmo extinguir os direitos mais básicos do cidadão. Elas tramam abertamente mergulhar o país numa ditadura atroz, acabar com o estado de direito, a liberdade de expressão e todas as liberdades em geral. Um sistema maligno que não se deterá diante da lei e do bom senso.

Nesse momento, o Vice-Presidente se levanta, aplaudindo entusiasticamente.

 Muito bem!

Toda a audiência aplaude igualmente e trocam entre si comentários concordantes. O Presidente acena pedindo que silenciassem, pois ainda havia mais a falar.

 Eu acredito que dificilmente essa situação se resolverá ou se desenvolverá sem conflitos sérios. Não descarto a possibilidade até mesmo de uma guerra civil em nosso país. Infelizmente, essa é uma realidade que temos que encarar com seriedade.

Todos os olhares se tornam sérios e mais atentos.

 E tudo isso se torna ainda pior quando vemos que existe um verdadeiro culto à personalidade em nosso país, nos piores moldes do que existiu no mundo na primeira metade do Século 20. Hoje é muito fácil identificar um personagem que representa tudo o que é mais odioso e deplorável em nosso país e, de outro lado, um nome que representa a esperança e a felicidade de nosso povo!

O Vice-Presidente se manifesta de novo.

 É verdade! E você nem precisa dizer de quem você tá falando!

 Já que estamos de acordo, eu acho que podemos resumir isso numa única frase.

O Presidente se levanta e convida todos a se levantarem também. O Vice-Presidente gesticula indicando que quer dar um soco no ar ao bradar o nome do personagem. O Presidente acena com a cabeça, concordando. Então ambos se entreolham e, ao mesmo tempo, levantam bruscamente os punhos fechados no ar e gritam simultaneamente:

 Viva Bolsonaro!

 Fora Bolsonaro!

Todos se entreolham surpresos e boquiabertos.

 Ué?

 Ué digo eu! Você é bolsominion?

 É claro que eu sou! E com muito orgulho!

 Você tá maluco? Não acredito que você apoia aquele cretino!

 Cretino é quem é contra ele. São os que gostam da roubalheira e da corrupção!

 Deixa de ser otário! É claro que tem corrupção no governo dele também! Aquilo é um fascista!

 Deixa de ser idiota! Fascista é o STF que prende jornalistas inocentes e fecha redes sociais!

 E ainda se diz cristão! Como é que você pode ficar do lado de um cara que prega a violência?

 Ele prega a justiça e a punição de criminosos! A impunidade é um dos maiores males em nosso país! Você não gosta dele porque é gay!

 Quem você tá chamando de gay?

Um dos presentes eleva o tom da voz e atrai a atenção de todos os presentes.

 Chega disso! Está claro que vocês deveriam ter conversado antes de começar a reunião! Agora é tarde! Eu sugiro que a gente encerre esse assunto agora e passe a tratar dos assuntos de pauta!

Alguém no fundo do salão então gritou:

 Cala boca, boi do Bolsonaro!

 Vem calar, jegue da esquerda!

A porrada estancou geral. A polícia foi chamada e foi preciso pedir reforço na cidade vizinha. O som das ambulâncias ecoou por toda a cidade, enquanto as vítimas eram levadas para diferentes postos de saúde em função da gravidade de seus ferimentos. O prédio, onde reinava um cenário de caos e destruição, foi interditado e entre os presos estavam o Presidente e o seu Vice, que tiveram que ser levados em viaturas diferentes.
Assim terminou a primeira reunião pós-pandemia do Grêmio Recreativo da Juventude Cristã.

Nossa Senhora da Liberdade, rogai por nós.

quinta-feira, 14 de junho de 2018


😈 NEM MANDELA, NEM WALESA, LULA É NOSSO EDDIE SLOVIK

Edward Donald Slovik foi o único soldado americano fuzilado por deserção na 2ª Guerra Mundial e o primeiro desde a Guerra de Secessão, 80 anos antes. Aí você me pergunta: ele foi o único americano que desertou durante a guerra? Resposta: claro que não. Então foi injusto? - você pergunta. E eu respondo: sei lá! 
A questão é por que ele foi fuzilado? Até onde a história é capaz de nos esclarecer os fatos, muitos soldados americanos desertaram durante a guerra. Vamos admitir que nem todos são Rambos e qualquer pessoa normal que comece a ouvir projéteis passando perto de seus ouvidos tenderá a supor que um deles vai acabar acertando a sua cabeça, o que seria suficientemente desagradável para você preferir sair correndo. No caso específico dos americanos, quando a coisa chegava ao ponto de ir para uma Corte Marcial, o cara acabava pegando uma pena bem pesada – tipo 20 anos de cadeia. Acontece que, com o fim da guerra, o crime acabava prescrevendo e aí o desertor ganhava o grande prêmio da sobrevivência ao custo de alguns anos de encarceramento bancado pelo governo.
Era isso que Eddie Slovik tinha em mente quando resolveu desertar. Só que ele não desertou em combate, ele simplesmente disse ao seu comandante que não iria para a linha de frente, virou as costas e foi embora. Todas as tentativas para demovê-lo de sua decisão foram infrutíferas (claro) e ele ainda fez o favor de fazer uma declaração por escrito e assinada dizendo que desejava desertar. Sempre tendo em mente a certeza da impunidade e da recompensa final.
O que Slovik não sabia é que no final de 1944 as coisas não andavam bem para os aliados. A esperança de uma vitória rápida havia desaparecido e algumas das mais brutais batalhas do Teatro de Operações Europeu ocorreram nessa época. A divisão de Slovik em particular (a 28ª) foi destroçada duas vezes em dois meses, nas batalhas de Hurtgen e das Ardenas. Simplesmente muita gente tinha morrido, o moral estava caindo e as deserções começaram a aumentar. Nesse clima, a Corte Marcial condenou Slovik por unanimidade à morte. Pedidos de clemência foram feitos aos escalões superiores, mas tratava-se de um desertor justamente da massacrada 28ª Divisão. Seria uma afronta aos bravos que haviam perdido suas vidas conceder a misericórdia a um cara que nem sequer tentou cumprir o seu dever.
Slovik não foi fuzilado por ser um desertor nem por ter ficha criminal (pequenos furtos na adolescência). Ele foi fuzilado porque abusou. Ele foi fuzilado porque achou que não acontecia nada com ninguém então não iria acontecer nada com ele também. Se a impunidade é pra todo mundo, ele pensou, porque logo eu vou ser punido?
O mesmo aconteceu com o ex-Presidente. Ele não foi preso por ter ganho um triplex, por ser corrupto ou por ter ficado milionário de forma escusa. Não foi preso por ser semianalfabeto ou por ter preguiça de ler. Não foi preso por ser alcoólatra. Não foi preso por ser um mentiroso contumaz e confesso. Não foi preso por capitanear a implantação de uma das ideologias mais imundas que já infestou as terras tupiniquins. Não foi preso por não ser capaz do mais minúsculo ato de decoro moral e ético. Ele foi preso simplesmente porque abusou. Se a impunidade é pra todo mundo, ele pensou, porque logo eu vou ser punido?
Diante da infinidade de opções que tinha diante de si, ele decidiu por todas. E aos extremos. Seu regime criminoso de tal maneira arruinou o país em troca de um enriquecimento pessoal meteórico e de um projeto insano de perpetuação no poder, que não deixou aos seus adversários e cúmplices outra atitude senão unirem-se para detê-lo. Primeiro se livrando da criatura estúpida e figurativa que estava mantendo a cadeira aquecida para quando ele voltasse, depois se livrando do ex-chefe. Ainda que ao custo de permitir que muitos amigos também acabassem presos, o que é um preço aceitável, para impedi-lo de matar a galinha dos ovos de ouro.
A morte de Slovik certamente fez muitos soldados americanos pensarem duas vezes antes de desertar, o que fez a sua morte ser mais útil à causa aliada do que a sua vida. A prisão de Lula certamente não acabará com a corrupção nem será o primeiro passo para isso, mas servirá de aviso aos corruptos para que sejam mais cuidadosos e que não ameacem novamente a prosperidade e a paz da nação com a sua ganância desmedida. Se isso acontecer, este será o maior, mais valioso e mais legítimo legado da era Lula. Senão o único.
😏 TODO MUNDO É BURRO, MENOS EU

Se você é fã dos Simpsons, conhece essa frase. No episódio "Homer, o Herege", o cabeça da família Simpson diz isso pouco antes de botar fogo na própria casa. Eu costumo me referir a ela como a "Lei de Homer" e eu lembro dela toda vez que vejo alguém de notória cultura e inegável inteligência falar uma asneira mastodôntica. E, normalmente, é aplaudido, o que me leva a crer que "todo mundo é burro, menos eu". Temos tido muitos exemplos disso ultimamente e não vou falar de personalidades da política, pois, como todo mundo sabe, toda pessoa que assume um cargo político é obrigada a deixar o cérebro (quando o tem) do lado de fora. Então, não vou considerá-los.
Vamos começar com o careca mais famoso do Fantástico, o Doutor Dráuzio Varella. Numa entrevista ao Pedro Bial (https://www.youtube.com/watch?v=EapN6TBFbBw), ele soltou a seguinte pérola: "Isso que a igreja faz com relação à camisinha é um crime". What?
Deixa eu ver se entendi: a igreja prega o celibato de solteiros e a fidelidade no casamento. Assim, como consequência natural dessas posturas, ela condena o uso de preservativos. Não é necessário entrar no mérito dessa questão. No entanto, essa política da igreja, segundo o Dr. Dráuzio, "dificulta a distribuição de camisinhas" e, portanto, contribui para uma epidemia mundial de AIDS. Fazendo de conta que eu não sei que ele é ateu, o que ele está tentando dizer é que os verdadeiros causadores da proliferação das doenças sexualmente transmissíveis são os católicos! Uma vez que eles são os únicos que teriam a obrigação de obedecer ao Vaticano, então são os católicos que, com suas atitudes de celibato e fidelidade, causam essa grande tragédia. Não, "peraí", isso não faz sentido pra mim. Faz pra você? Não seria mais lógico considerar que uma sociedade imersa numa permissividade e promiscuidade desenfreada seria um cenário muito mais propício para a transmissão das DST? Não seria também mais razoável supor que a grande rejeição de muitas pessoas ao uso de preservativos, consubstanciada em frases típicas como "chupar a bala com papel" ou "tem que ser carne com carne" seria um fator muito mais significativo do que um apelo da igreja? Dráuzio, na boa: vai pentear macaco.
Outra peça magistral do pensamento filosófico brasileiro (de cores no mínimo suspeitas) chegou aos nossos infelizes ouvidos através de Leandro Karnal. O brilhante alopécico declarou (https://www.youtube.com/watch?v=xCMdaLbBsj0) que a única diferença entre os 300 de Esparta (que ele chama de "brucutus anabolizados", nos fazendo supor que ele realmente acreditou na computação gráfica do filme) e os terroristas do 11 de setembro é que nós somos ocidentais e, portanto, chamamos o primeiro grupo de "herois" e o segundo grupo de "fanáticos" e "fundamentalistas". Como-lhe?
Se me permitem, deixa eu explicar pra esse cara o que é ser um heroi: é aquele que deliberadamente se arrisca ou se sacrifica para ajudar outras pessoas. Eu gosto dessa definição, menos espalhafatosa, mas sumamente verdadeira. Os 300 de Leônidas foram enfrentar um exército invasor muito superior para proteger a sua Pátria, seus lares, suas famílias, suas mulheres e filhos. Morrendo ou não, isso faz deles herois. Já os seguidores de Bin Laden se mataram e levaram com eles centenas de civis inocentes e desarmados, num atentado covarde e vil, para benefício de quem? De quem? Até hoje, dezessete anos depois, não encontrei uma resposta válida para essa pergunta. Ou seja, enquanto o sacrifício dos 300 ajudou toda a Europa e, por conseguinte, todo o mundo ocidental a se livrar de uma ocupação islâmica, impedindo assim que eu leve minhas esposas pra passear na rua com uma correntinha presa no pé (o que até que não seria uma má ideia... brincadeira, Denise, brincadeira!), o ato dos kamikazes da Al-Qaeda, ao contrário, marcou indelevelmente o início do Século XXI e gerou inúmeras guerras, atentados e mortes, principalmente entre aqueles que aplaudiram essa tragédia. Tornaram o mundo um lugar pior para se viver. Entendeu a diferença, Karnal, ou quer que eu desenhe? De fato, me parece que a intenção do senhor Karnal é passar a ideia de que lutar pela sua Pátria, pelo seu país, pelo seu lar é uma estupidez tão grande quanto foram os atentados do 11 de setembro. Karnal, na boa, vai pentear o Dráuzio.
Por fim, o grande filósofo contemporâneo Mário Sérgio Cortella. Numa "brilhante" palestra repetida à exaustão (https://www.youtube.com/watch?v=P3NpHryB-fQ), ele afirma que todos nós somos "vice-treco do sub-troço". Para chegar a essa aplaudida conclusão, ele compara os habitantes desse nosso planetinha com bilhões de planetas, estrelas, galáxias, etc. Noves fora que essa comparação é absolutamente inútil, deixa eu dizer uma coisinha pro senhor Cortella: se algum seguidor da Maria do Rosário (a deputada, não a santa) encher a sua cara de tiro, ele será para você a pessoa mais importante do mundo, pois será ele quem interromperá seu processo de vida e nada no universo poderá impedir isso - aliás, o universo tá pouco se lixando pra você. Ou melhor ainda: se algum dia os vermelhos afinal dominarem nosso país e você tropeçar em algum figurão do partido, quando ele te perguntar "Sabe com quem está falando?" experimenta contar a sua estorinha pra ele. Vai ser muito divertido.
Se o senhor Cortella se acha o "vice-treco do sub-troço", sinto muito por ele. Eu, de minha parte, sou o ser mais importante de todos os universos (os da Marvel, inclusive). Meus amigos dizem que eu sou megalomaníaco, mas eu os perdoo por não serem capazes de reconhecer a minha grandeza. E sabe porque eu digo isso? Porque em Efésios, 2:10, está escrito: "Nós somos a obra-prima de Deus. Ele nos fez o que somos agora; em nossa união com Cristo Jesus, ele nos criou para que fizéssemos as boas obras que ele já havia preparado para nós". Ou seja, eu não sou uma partícula insignificante do cosmo, sou a obra-prima de Deus. E sabe qual é a melhor coisa disso? Você também é. Todo mundo é. E é ao reconhecer uma obra-prima de Deus em cada ser humano que perdemos automaticamente o direito à soberba e à arrogância, que, em última análise, é o objetivo da palestra do nosso filósofo de porta de banheiro público. Portanto, Cortella, na boa: vai pentear o Aquaman (que tá precisando).
Não sou filósofo, nem professor e admito que ás vezes sou até meio burro, mas, eu peço sinceramente: não fiquem aplaudindo qualquer um só porque a grande mídia quer que você faça isso. Na boa.