domingo, 18 de junho de 2023

 😲 JUDAS

Diz a tradição cristã que Jesus foi traído por Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos. Judas recebeu trinta moedas de prata dos sumos sacerdotes de Jerusalém para entregar Jesus. Ele conduziu um bando até o jardim do Getsêmani, onde Jesus estava com alguns discípulos e o beijou para lhes indicar que era a pessoa que deviam prender. Depois que Jesus foi preso, Judas se arrependeu, tentou devolver as moedas de prata e cometeu suicídio.

Sou católico apostólico romano xiita desde que nasci, mas, confesso, há muito tempo eu deixei de engolir essa estória. Uma análise superficial dela nos permite levantar alguns pontos de questionamento interessantes:

1º) A morte de Jesus era necessária para o projeto de salvação. Jesus não apenas sabia disso, como já havia alertado os discípulos, que, tapados como eram, não entenderam nada. Jesus precisava morrer para poder ressuscitar (todos de acordo que não é possível ressuscitar sem morrer antes, certo?), mas não podia simplesmente ir se apresentar aos sumos sacerdotes e dizer: “Cheguei, galera, façam logo o que vocês têm que fazer”.

2º) Qual a necessidade de alguém indicar Jesus, uma figura pública conhecidíssima, com um beijo? Imagine que hoje alguém quisesse trair o Bolsonaro, por exemplo: ele precisaria se aproximar dele e beijá-lo? Claro que não. Há um quilômetro de distância você aponta o dedo pro meio de uma multidão e diz “Olha ele lá!”.

3º) Se Judas traiu realmente Jesus, sabia perfeitamente o que fariam com Ele. Não dá pra entender o seu arrependimento e seu subsequente suicídio. Tampouco ter a intenção de devolver o dinheiro, que de forma alguma reverteria a situação.

4º) Em Mateus 26, é descrita a famosa reunião (que virou piada de argentino) em que Jesus revela que um dos discípulos vai traí-lo. Então, um por um, perguntam para Jesus: “Senhor, porventura, serei eu?”. Um de cada vez pergunta até que chega a vez do dito cujo perguntar e Jesus responde na lata: “Sim, tu o declaraste!” Agora pensa comigo: se você não pretende fazer uma coisa errada, você vai perguntar pra alguém se você vai fazer? Não faz sentido. Se eu não pretendo jogar uma pedra na vidraça de alguém, eu não vou perguntar pro dono da casa: “Ei, cara, por acaso, você sabe se eu vou jogar uma pedra na sua vidraça?” Além disso, Jesus abre o jogo e diz pra todo mundo que Judas vai traí-lo – e ninguém faz nada? Em alguns grupos por aí, o cara ia ser convidado para dar “um passeio”. Aqui, ele termina de comer, paga a vaquinha, toma um café e vai embora, numa boa. 

Muito bem, eu levantei a bola, agora preciso chutar pro gol. O que eu acho que aconteceu?

A minha teoria é que Jesus precisava morrer (acho que até aqui ninguém discorda), mas Ele não podia se enforcar numa caverna – a morte dele tinha que ser pública e Ele tinha que ser elevado, para corresponder à imagem da serpente de bronze que Moisés havia feito e que todos que olhassem para ela seriam salvos – a analogia é bastante óbvia: quem vê Jesus como seu salvador e nele crer, terá a vida eterna. Portanto, Ele precisava ser morto num lugar alto e ao ar livre, ou seja, numa cruz. Obviamente, os sumos sacerdotes queriam exatamente isso, para se livrar daquele encrenqueiro que estava acabando com a mamata deles. Mas estes não podiam prender Jesus porque Ele vivia cercado de multidões – e tentar aprisioná-lo no meio de uma massa que o seguia fanaticamente estava fora de cogitação. Então Jesus, convenientemente, decide se afastar e vai para o Getsêmani. Mas um dos discípulos precisa bancar o traidor e ir avisar os sumos sacerdotes de que Ele estava lá praticamente sozinho e indefeso. Neste enfoque, a fatídica reunião muda totalmente de sentido. Jesus não estaria acusando alguém de ser um traidor – Ele estava avisando aos discípulos que um deles teria que cumprir esse papel e aí, um por um, perguntam a Jesus qual deles teria essa terrível incumbência. Jesus por fim escolhe Judas, que sai para cumprir a missão determinada pelo Mestre – e, sendo assim, é natural que ninguém reaja. Uma vez no Getsêmani, quando o grupo hostil chega, Jesus não se surpreende com a sua chegada, mas parece surpreso com o gesto de Judas, que diz “Eu te saúdo, ó Mestre!” e o beija, o que pelo jeito não estava combinado. Jesus teria se limitado a dizer “Amigo, para que vieste?”, o que no meu planeta pode significar “Você não precisava ter vindo até aqui.” O beijo, longe de ser um gesto de traição, seria uma demonstração de respeito e admiração, que lhe deram as forças necessárias para realizar missão tão ignóbil, porém necessária. E, por fim, surpreso ao perceber que Jesus seria realmente morto e não compreendendo que isso era necessário, ele se desespera e se mata. Certamente pesou também em sua mente a declaração de Jesus, quando Ele disse que “ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria jamais haver nascido”. Ele entendeu que teria pelo resto da vida a fama de traidor e não pôde suportar isso.

Aí Pedro faz aquela pataquada com a espada, fere o servo do sacerdote, só pra dar mais trabalho pra Jesus que teve que curá-lo. O resto todo mundo sabe... Pilatos, galo cantando, etc., etc., etc...

Eu sei que posso estar falando um monte de bobagens e que qualquer pessoa com mais preparo do que eu pode destruir minha argumentação com duas frases. Entendo isso perfeitamente. Mas para você que leu essa pequena epístola, eu gostaria de fazer um apelo: não chamem nossos militares de “judas”. Talvez vocês estejam ofendendo a memória de um discípulo que apenas cumpriu o seu dever.


Um comentário:

  1. Analisando a história do Brasil, por este ângulo, tenho esperança no salvador da pátria, só que agora pelas mãos de outro messias.

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